Nos últimos dias, dois países centrais para compreender como o Brasil se desenvolveu enquanto Estado e Nação estiveram no centro do noticiário: Haiti e Cuba.

No último dia 7 de julho, o presidente do Haiti, Jovenel Moise (foto da capa), foi assassinado por um grupo de mercenários em circunstância não totalmente esclarecida. A situação no Haiti não é boa e o Brasil teve um papel nisso. Em 2004, logo após um golpe de estado que derrubou o então presidente Jean Bertrand Aristide, a ONU envia uma missão militar comandada pelo general Heleno para “pacificar” o país caribenho. Nada poderia ser pior para o povo haitiano: massacres, aumento de estupros, reaparecimento de doenças erradicadas.

A conexão Brasil- Haiti não foi via de mão única: o que era praticado lá, passou a ser aplicado aqui. É assim que foram criadas as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Tratava-se de uma técnica de controle de população para conter a resistência haitiana, mas agora aplicada nas comunidades cariocas.

A Revolução Haitiana foi a mais radical das revoluções modernas e ousou inventar uma liberdade que alcançava os negros também. Este projeto sempre assustou a classe senhorial aqui no Brasil, de maneira que a Nação imaginada por ele, sempre foi uma Nação haitianista. De certa maneira, as UPPs foram uma reatualização desse projeto de Nação.

Mas, como pontuou Marcos Queiroz, é importante observar que a missão militar foi fundamental para o empoderamento dos militares e o resultado disso pode ser visto no atual governo militar que governa o Brasil.

Enfim, o discurso dos militares é marcado por um forte anticomunismo, algo compartilhado por setores conservadores da sociedade. Eles têm um bordão para tentar calar críticos: “não gostou, vai pra Cuba”. E aqui chegamos à ilha que ousou aderir ao socialismo.

Na semana passada, cubanos foram às ruas protestar contra problemas econômicos que estão enfrentando. A maioria o fez enquanto defesa da Revolução, mas é claro que houve uma minoria que fez coro com o imperialismo dos EUA.

Aqui a conexão Brasil-Cuba ocorre a partir da circulação de um discurso anticomunista, no qual o país caribenho é um mal que deve ser evitado a todo custo. Neste sentido, há distorções sobre o contexto cubano e promoção de um Brasil imaginário. Por exemplo, é comum ser dito que em Cuba não há liberdade de expressão, ao contrário do Brasil. É claro que ninguém lembra que Rodrigo Pilha ficou preso por mais de 3 meses por afirmar que Bolsonaro é um genocida; que uma mulher foi presa por bater panela contra o presidente, enfim, a lista é longa...

Também é dito que o regime cubano viola gravemente os direitos humanos, fazendo prisioneiros políticos. É verdade. Mas aqueles que apoiam este discurso esposam o genocídio da população negra e indígena enquanto política estatal por aqui.

O anticomunismo e o haitianismo não são práticas para evitar males profundos, mas técnicas para conjurar a ousadia popular que Haiti e Cuba inspiram.

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Autor
Samuel Rocha - Graduado em História pela UNIFESP. Tem mestrado em História Social pela mesma instituição. É professor da rede municipal de São Paulo.
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