Toda época tem o seu vocabulário próprio, usado pelos próprios atores para dar sentido à realidade e este período bolsonarista não é diferente. Por isso mesmo, resolvi escrever alguns verbetes de termos que considero importante para compreendê-lo.

Antifascismo: única oposição real e efetiva ao bolsonarismo.

Bolsonarismo: é movimento e ideologia. O movimento é composto por policiais, membros das forças armadas, alas do cristianismo, conservadores, liberais, agronegócio, especuladores do mercado financeiro, grandes comerciantes e etc. A ideologia é uma mistura de neoliberalismo, supremacia branca enquanto ideal de segurança, mito da democracia racial, anticomunismo, nacionalismo, cristianismo reacionário, fascismo. Um dos objetivos é o estabelecimento dum novo padrão de acumulação de capital.

Comunismo: enquanto não houver um projeto anticapitalista com adesão das massas, será apenas um espantalho da direita para calar qualquer dissidência ou justificar ataques a direitos sociais.

Democracia liberal: governo do povo, pelo povo e para o povo. Contudo, a definição de “povo” é restrita por questões de raça, gênero e classe, ao passo que “governo” é definido ao gosto neoliberal. Estas restrições explicam o porquê a face democrática nas periferias é uma zona cinzenta, o estado de exceção

Direita: diversa (alguns setores rejeitam certos aspectos do bolsonarismo), é apoiadora entusiástica da agenda econômica do atual governo. Longe de ser mero detalhe, isso informa a natureza da oposição de setores ao atual governo.

Esquerda: campo político que enfrenta a ascensão do fascismo e a maior crise de sua história, isto é, desde 1850. Embora princípios como igualdade, antirracismo, anticapitalismo ou reformismo sejam evidentes, é igualmente claro que o Estado de Bem Estar Social, como conhecemos agora, está em crise, ao passo que a tão necessária Revolução tá fora do horizonte de expectativas. 

Fake News: o povo agradece ao Paulo Guedes quando o encontra no supermercado.

Genocídio: Evento fundante da nação, iniciado com o colonialismo português e que continua agora com a pandemia da covid 19.

Liberais: em relacionamento sério com a agenda proposta pelo Posto Ipiranga.

Mercado: palavra usada para não nomear e desresponsabilizar os patrocinadores do genocida e promotores da miséria no Brasil.

Moderação: Promover ataques sociais sem chocar a opinião pública discursivamente.

Polarização: é realmente um mito que uma sociedade capitalista, que é baseada na exploração e dividida em classes, não seja polarizada. A polarização não começou agora, embora seja novidade o fato do bolsonarismo informar a expressão ideológica dos conflitos sociais.

Radical: os moderados costumam empregar este adjetivo para se referir àqueles que rejeitam a “moderação”, isto é, os que rejeitam completamente o bolsonarismo ou bolsonaristas fervorosos.

Terceira Via: Programa econômico bolsonarista repaginado, com ar moderno, mas sem Bolsonaro no poder.

*O Nota de Rodapé é um espaço de crítica e construção do conhecimento das Ciências Humanas, assim como um lugar para promover os debates ligados a pesquisa científica. Siga-nos no Instagram @nota_de_rodape

Autor
Samuel Rocha - Graduado em História pela UNIFESP. Tem mestrado em História Social pela mesma instituição. É professor da rede municipal de São Paulo.
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