Há alguns anos, no fim de ciclo de trabalho de dez anos, resolvemos (eu e minha mulher) fazer o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.

Caminhamos desde a fronteira da França até a cidade de Santiago (são mais de 800 quilômetros).

Esse caminho tem muitos séculos e, depois da tomada de Jerusalém pelos mulçumanos, passou a ser usado pelos cristãos como alternativa de peregrinação católica.

Você caminha quilômetros por dia e hospeda-se em albergues com gente de todo o mundo. Era verão europeu e depois de um trecho montanhoso, chegamos a uma pequena cidadezinha.

Os albergues são de três tipos, da igreja católica (gratuitos), municipal ou privados. Estávamos tão cansados que não tínhamos forças para procurar ou escolher. Entramos no primeiro que encontramos. Era privado.

Depois de tomar banho e almoçar, sentei numa cadeira de frente para a avenida e fiquei olhando o movimento. Muitos peregrinos passavam em direção à cidade e dei-me conta que ainda não tinha chegado ao "Pueblo''.

Normalmente, caminhávamos de manhã e ao entardecer conhecíamos o lugar (no verão europeu, o sol se põe depois das 20h). Dessa vez não faríamos isso! Estávamos muito cansados!

Um dos donos sentou-se ao meu lado e começamos a conversar.

De repente, um cão sai do Albergue correndo e latindo para alguém que passava. O senhor grita e chama o cachorro de "Lázaro". Percebi que nunca havia visto um cachorro tão feio e desengonçado.

Sem mostrar minha surpresa pela feiúra do cão, para não ofender o homem, comentei; "Lázaro" o que ressuscitou!

- É isso mesmo, um dia esse cachorro foi atropelado aqui na frente do Albergue. Verificamos que não havia o que fazer e o colocamos à beira da rua, para morrer, pois estava agonizando. No dia seguinte, fomos fazer o enterro, já havia aberto a cova, e ele, todo quebrado, levantou-se. Custou uma pequena fortuna em remédios e, desde então, está aqui e o rebatizamos de Lázaro.

Nesse caminho ouvi muitos relatos de curas milagrosas de doenças. Tenho uma tese: muitas doenças são psicossomáticas, advindas de estresse da vida moderna ou contexto familiar e social. Como você passa mais de trinta dias caminhando, longe de seu ambiente social, comendo comida caseira e natural (a maior parte do caminho é rural) e fazendo atividade física diária, mais a distância dos problemas, o corpo vai se recuperando da doença. Daí a “cura milagrosa”.

Mas uma criatura que tenha ressuscitado, isso sim é um milagre.

Autor
José Paulo Barbosa é professor, escritor e militante de causas sociais e ambientais.
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