No último dia 10 de agosto, assistimos perplexos ao lamentável desfile de tanques de guerra na Esplanada dos Ministérios, no qual o presidente Jair Bolsonaro tomou parte. O objetivo deste foi duplo: agradar os setores mais radicais do bolsonarismo e pressionar os deputados a votarem favoravelmente à PEC do voto impresso.

A reação ao desfile não ocorreu como o governo gostaria: nas redes sociais, 93% dos comentários tinham tom de zombaria; políticos governistas criticaram a ação, a proposta de adoção do voto impresso foi derrotada na Câmara dos Deputados e a Lei de Segurança Nacional foi revogada no Senado. Diante deste cenário é correto afirmar que o governo saiu derrotado?

Bom, é aí que as coisas ficam complicadas. O desfile foi (mais) uma mensagem autoritária e exercício de distração. Neste sentido, ele é a sinalização de que a possibilidade de um golpe militar nunca foi tão real. Mas enquanto nos debruçávamos sobre o caráter golpista da mensagem e celebrávamos a derrota da PEC do voto impresso, uma contrarreforma trabalhista também foi aprovada no Congresso, precarizando ainda mais as relações de trabalho.

Não se tratou de um gesto pequeno. Desde 2016, os direitos sociais consagrados na Constituição de 1988 estão sendo destruídos em passo acelerado, por meio da aprovação do teto de gastos públicos, reformas da previdência, trabalhista, desregulamentação ambiental, avanços sobre terras indígenas e, mais recentemente, a proposta da reforma administrativa. Não se trata da costumeira violação de direitos, mas de uma agenda cujo objetivo é extingui-los. É neste contexto que a contrarreforma trabalhista deve ser compreendida.

Em linhas gerais, a relação entre Bolsonaro e a burguesia é regida por um acordo: o presidente banca o atropelo dos direitos sociais em troca do apoio do empresariado. Se a mensagem com o desfile dos tanques de guerra foi desmoralizada perante a opinião pública, a precarização das relações de trabalho garantiu uma vitória importante ao governo.

Perguntar se o governo ganhou ou perdeu com ocorrido no dia 10 tem outra razão de ser: a confusão e o desnorteamento são táticas de Bolsonaro, de maneira tornar a análise da realidade ainda mais complicada. Por vezes, é difícil saber se houve uma derrota ou vitória da oposição, afinal, sempre pode haver uma distração.

Uma coisa é certa: a questão do voto impresso é central apenas no Brasil paralelo, que é o terreno delineado pelo presidente. Se jogarmos nele, nunca ganharemos. No Brasil real, o que realmente importa é o empobrecimento generalizado, o retorno inglório ao mapa da fome, o desemprego em escala inédita, a maior inflação desde 2002, enfim, as condições materiais de vida. É operando nele que poderemos reconhecer com segurança a derrota ou a vitória.

Artigo publicao originalmente no site "Nota de Rodapé", um espaço de crítica e construção do conhecimento das Ciências Humanas, assim como um lugar para promover os debates ligados a pesquisa científica. Siga-nos no Instagram @nota_de_rodape

 

Autor
Samuel Rocha - Graduado em História pela UNIFESP. Tem mestrado em História Social pela mesma instituição. É professor da rede municipal de São Paulo.
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