Certa vez meu orientador, Benito Schmidt, levantou um questionamento em sala de aula: "Por que só tratamos de gênero quando estudamos mulheres, de raça quando falamos da trajetória de uma pessoa negra e de sexualidade quando a pesquisa é sobre um LGBTQIA+? A masculinidade e a branquitude não são vetores importantes?" Ele ainda mostrou que a trajetória de um homem cisgênero branco vira e mexe retoma aspectos políticos, econômicos ou sociais dessa pessoa. E perguntou a nós: "Em que medida a masculinidade de alguém como Getúlio Vargas não moldou os seus repertórios e campos de possibilidades?" 

Essa indagação me gerou de imediato uma inquietação, a qual retomo nas linhas que se seguem. É comum não considerarmos certos marcadores sociais como se eles fossem auto-explicativos ou desnecessários, o que reforça a ideia do sujeito universal e, consequentemente, um olhar masculino e excludente sobre a Historia. Seria interessante começarmos a refletir a trajetória de certos personagens por meio do gênero, pois ele poderia ajudar a refletir, por exemplo, o porquê de um político com amantes não perder seu capital político (ou até ganhar mais). Temos inclusive um exemplo recente na eleição de 2018, durante a qual ocorreu o vazamento de imagens íntimas de um certo candidato, o que não impossibilitou a sua vitória. 

Vale lembrar que a possibilidade de ser pego "em adultério" traria consequências diferentes para a carreira política de uma mulher e isso não se restringe ao Brasil. É recorrente a exaltação da virilidade como algo necessário para um posto de liderança, mas isso não é algo natural, pois é uma postura que vem de longa data. Há fontes que mostram que as relações extraconjugais de governantes e membros da elite não atrapalharam os seus projetos pessoais, o que nos faz retornar à maneira como as relações de gênero foram/são construídas. Então, porque não pensar a vida de um JK por meio do gênero? O fato de ele ter amantes não se tornou um empecilho em sua campanha à presidência. Longe de partir de uma História-Curiosidade, a ideia aqui é questionar como o gênero interfere nas trajetórias dos homens. 

É certo que ele não pode ser analisado apartado da classe e da raça, pois o modo como um indivíduo observa o seu entorno, e é observado, é fruto de um leque de vetores. Assim, é bom salientar que me referi aqui a personagens amplamente analisados por historiadores, jornalistas e cientistas sociais, mas o questionamento vale também para a biografia de outras pessoas. 

Joan Scott já alertou para o problema da generalização de sujeitos que não se enquadram num certo padrão. É como se a individualidade fosse possível somente a um homem, branco e de elite. Nesse processo, a masculinidade é naturalizada como um dado invisível ou que não precisasse ser delimitada. 

Contudo, faço coro à fala do meu orientador: " Se a análise da vida de uma mulher deve levar em consideração o gênero, por que a de um homem não? Tal questionamento nos ajuda a perceber o quanto precisamos caminhar no modo como pensamos o passado para romper preconceitos e levantar novas questões.

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Autor
Roger Camacho - Doutor em História pela UFRGS, mestre pela UNIFESP. Professor na rede pública estadual e interessado em temas como gênero, Trajetórias de vida, branquitudes, memória e patrimônio.
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