Uma das lembranças mais vívidas na minha memória religiosa é a da minha família falando de uma tal de “lei da semeadura”. Dentre mesóclises e pretéritos mais que perfeitos, lembro-me bem de alguns versículos que falavam sobre isto, como Provérbios 22:8: “O que semeia a injustiça segará males”, ou ainda “Porque semeiam ventos e segarão tormentas”, em Oséias 8:7. Me lembrei bastante destas passagens porque o meu sentimento ao analisar as manifestações sem público de ontem (12), originalmente promovidas pelo MBL, é a de que o movimento pretensamente liberal está pagando uma conta que foi se juntando nos últimos anos. O golpe em Dilma Rousseff, os posicionamentos contra professores, o apoio a Bolsonaro, o aceno ao fascismo, etc... cobrou na hora em que eles menos têm condições de pagar.

Mas vou deixar o sermão do “pastor Jonathan” um pouco de lado e olhar para outro lugar. Mas já volto nesta linha de pensamento do parágrafo anterior.

Eu era a favor da presença da esquerda no ato de ontem. O que de fato houve. Bandeiras do PT, PCdoB, PSOL e centrais sindicais foram vistas hasteadas por militantes por toda a extensão da Avenida Paulista, além da presença de lideranças como a deputada estadual Isa Penna (PSOL), o deputado federal Orlando Silva (PCdoB) e Ciro Gomes (PDT). Contudo, tudo isto em número bem reduzido dado o potencial que estas siglas carregam. Era a favor por, basicamente, dois motivos. Um deles se mostrou equivocado da minha parte.

O primeiro se dava pela necessidade de uma resposta rápida ao 7 de setembro bolsonarista. O esvaziamento dos atos de ontem darão um bom tempo de narrativa pronta, fácil e efetiva aos blogueiros do presidente. Será um festival de comparação de fotos das duas manifestações convencendo as pessoas de que o povo não quer o impeachment. Ou mesmo juntando esquerda, centro e a “direita não-conservadora” não somam nem 10% dos apoiadores de Bolsonaro. Acreditava que uma manifestação forte no último dia 12 impulsionaria outros atos, estes sim com mais capilaridade, com mais pluralidade, mas agora o ponto de (re)começo se dará de outra forma.

O segundo motivo, e neste a rua me mostrou que eu estava enganado, consistia na minha crença de que não era possível um impeachment sem o escopo da direita que se viu decepcionada com Bolsonaro. E a verdade é que este contingente se mostra irrelevante. No começo do dia, um seguidor no Instagram me perguntara se seria possível formar um movimento que derrubasse Bolsonaro sem o MBL, e fui taxativo ao dizer que não. Hoje, esta resposta é outra. É fato de que muitos que apertaram 17 na urna em 2018 se arrependeram, mas esta não parece ser uma parcela disposta a ir à rua.

O que se viu na Avenida Paulista foi exatamente uma direita que não conseguiu se desvincular dos códigos e linguagem tosca do bolsonarismo, até mesmo a bandeira de Gadsden foi vista lá.... o problema era que o bolsonarismo tinha sido eleito como inimigo para este dia.

Isto me leva para o primeiro parágrafo. O MBL construiu a própria inviabilidade... ou melhor... a ilegitimidade para estar em um ato como este. Se desmembrar do bolsonarismo foi desmembrar-se de sua própria essência, o que o levou a sérios problemas quando se objetivou estabelecer diálogos com outros grupos. É lógico que a maioria de líderes e militantes de esquerda iriam evitar de se associar com esta manifestação. Como pedir o apoio do PT e levantar um boneco gigante do Lula abraçado com Bolsonaro?

É necessário a maior unidade possível para que um impeachment tão espinhoso como este aconteça. Mas a centro-direita fechou esta porta. Ou melhor, ceifou aquilo que semeou.

Que a minha visão pessimista dos danos que o evento fracassado de ontem causou seja apenas... pessimista. Agora é focar no dia 02 de outubro.

 

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Autor
Jonathan Portela - Doutorando em História pela Universidade Estadual de Campinas, criador do Nota de Rodapé e na inquietude de ser brasileiro.
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