O próprio cenário político que conduziu Jair Bolsonaro à presidência da República foi consequência de um golpe de Estado. A transformação do seu personagem de integrante do elenco do SuperPop até ao homem que almeja rupturas democráticas para, entre outras coisas, evitar a prisão dos filhos e a própria, apenas escalou os degraus de poder, mas toda a sua estrutura de pensamento e desprezo por tudo aquilo que não o venera se manteve. O “7 de setembro” é boa expressão disto.

Os atos convocados e custeados pelo governo mostraram que Bolsonaro conta com a sua última linha de defesa, a única que não sucumbiu na árdua tarefa de protegê-lo no imaginário popular: a “militância terraplanista”.

O presidente já não é unanimidade entre os liberais, evangélicos, “faria limers” e nem relevantes influenciadores que se denominavam “conservadores”.  Restou a sua seita. Aquela que se alimenta dos blogs bolsonaristas, que fornecem a Bolsonaro a bolha que faz o chefe do executivo se convencer que o povo brasileiro está resumido aos seus seguidores no Twitter ou a audiência da Jovem Pan. Esta seita que se um dia ver Bolsonaro bater na própria mãe vai questionar: “mas tem que ver se essa véia aí não é comunista”.

O esfacelamento de seu apoio também foi à rua e deu uma “quarta-feira de cinzas” para o amigo de Queiroz. O primeiro elemento a demonstrar isto foi o grande flop dos atos do dia 7.

Não. De forma alguma é possível dizer que os locais de manifestação estavam esvaziados. Contudo, a expectativa da equipe de Bolsonaro mostra como o esteio do presidente derreteu, como já vem sendo exposto por pesquisas de opinião desde o começo do ano. Para se ter uma ideia, os organizadores do evento na avenida Paulista, em reunião com a PM de São Paulo, estipularam a presença de entre 2 milhões e 3 milhões de apoiadores no ato.  Acabou reunindo 125 mil pessoas, segundo cálculo da Secretaria da Segurança de São Paulo. Em Brasília, ponto estratégico para medir o sucesso dos protestos (a favor?), houve cerca de 80 mil manifestantes, número considerado baixo, dado todo o investimento em caravanas que foi feito e a expectativa de que uma invasão em massa no prédio do STF pudesse acontecer.

Assim como nas motociatas e últimas manifestações de ruas convocadas por bolsonaristas, as aglomerações neste 7 de setembro também mostraram uma mudança significativamente importante na militância do presidente: A acentuada diminuição da presença de jovens, mulheres e negros. O bolsonarismo se firma como um movimento de homens brancos. No caso do segundo e terceiro grupo, a aderência já tendia a ser menor pelo próprio discurso racista e misógino que Bolsonaro não abandonou depois de se tornar presidente. Mas, a pesquisa do Instituto Atlas Político, divulgada nesta segunda (6), em que mostra que 73% dos brasileiros entre 16 e 24 anos desaprovam Bolsonaro, mostrou-se verdadeira caso tenhamos estes atos como exemplo.

Para finalizar, a não-adesão ao intento golpista de Bolsonaro forçou partidos, que até então cooperavam com o governo na Câmara, a convocarem reuniões internas para discutir o impeachment do presidente, como é o caso de PSDB e PSD. Kassab, inclusive, declarou-se publicamente favorável a abertura do processo, assim como João Dória. Parlamentares do DEM, PL e PP, principais partidos da base de apoio de Bolsonaro, também demonstram descontentamentos com a postura do governante.

Bolsonaro rompeu uma corda que não é mais possível remendar.

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Autor
Jonathan Portela - Doutorando em História pela Universidade Estadual de Campinas, criador do Nota de Rodapé e na inquietude de ser brasileiro.
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