Eu não sou usuário do Twitter. Nunca me identifiquei com a rede, logo nunca busquei me engajar nela. Contudo, no último dia 9, tive de passar um par de horas ali, pois foi exatamente nos perfis de famosos influenciadores conservadores que vimos o bolsonarismo romper com Bolsonaro. Bom... pelo menos parte dele... e pelo menos temporariamente.

 A “Declaração à Nação” escrita por Michel Temer (que, diga-se de passagem, foi muito gentil em cometer erros diversos de gramática para parecer que foi Bolsonaro quem redigiu o texto), e que visava esfriar as tensões com o STF, foi um banho de água em quase ponto de fusão na  última linha de defesa do presidente: a militância golpista.

Um dos mais famosos influenciadores bolsonaristas, Flavio Morgenstern, referiu-se ao presidente como “LIXO TRAIDOR DA PÁTRIA” em seu twitter. Rodrigo Constantino, que há uns meses se envolveu em uma polêmica ao dizer que, caso a filha fosse estuprada, a puniria e não acusaria o criminoso, chegou a sugerir que o ministro Tarcísio Freitas deveria ser o candidato para presidente em 2022, substituindo Bolsonaro. O caso mais icônico foi o do blogueiro Allan dos Santos, que foi o influenciador que provavelmente mais enriqueceu neste nicho de mercado bolsonarista. Ele usou as palavras “game over” (fim de jogo) e entrou em conflito com outros conhecidos militantes que resolveram defender o presidente.

É claro que, passadas algumas horas, a claque de Bolsonaro já conseguiu desenvolver uma narrativa para acalmar os vários apoiadores que se revoltaram com a “arregada” do chefe do Executivo. Mas não é isto que me interessa aqui. Como já escrevi em outros momentos, Bolsonaro pode bater na própria mãe que o seu rebanho vai justificar dizendo que a dona Olinda era comunista enviada pelo governo chinês para obter informações privilegiadas do governo brasileiro.

A verdade é que Bolsonaro sentiu o fracasso do 7 de setembro. Um vídeo gravado de dentro do helicóptero que levava o presidente a sobrevoar os manifestantes em Brasília já demonstrava um homem de semblante abatido. Mesmo com muito dinheiro investido nos atos, a aderência bem abaixo da expectativa mostrou para o entusiasta da cloroquina que as pesquisas de popularidade não são feitas apenas dentro de sua bolha (que está cada vez menor). O próprio fato de buscar a ajuda de Temer, conhecido por ser habilidoso articulador e responsável por Alexandre de Moraes estar no STF, mostra um Bolsonaro com medo e ciente de que sua força está extenuada.

Outro fator, talvez o mais importante para o presidente, é que em duas semanas será julgado na segunda turma do STF o pedido de Flávio Bolsonaro para usufruir do foro privilegiado. Kássio Nunes preside a sessão e já alertou aquele que o colocou lá que não será uma batalha fácil para o filho 01. Isto certamente pesou para que Bolsonaro buscasse ter um clima mais leve na sua relação com a corte.

O governo Bolsonaro morreu, mas Lira não quer enterrar.

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Autor
Jonathan Portela - Doutorando em História pela Universidade Estadual de Campinas, criador do Nota de Rodapé e na inquietude de ser brasileiro.
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