Em junho de 2017, Michel Temer era denunciado por corrupção e se tornava o primeiro presidente a responder por crime durante mandato. Neste episódio, o então Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, acusara o mdbista de atuar em conluio com Rodrigo Loures em crimes relatados pela JBS, um escândalo que deu um grande chacoalhão no país. Alguns meses depois, em setembro, já enormemente desgastado com os casos de corrupção em que protagonizou, o Ibope apontava o espantoso número de 77% de desaprovação do governo de Temer. Quase um ano mais tarde, mais especificamente em junho de 2018, o DataFolha apontava que este índice havia subido para 82%. Temer sagrava-se o presidente mais impopular desde a redemocratização.

Com o afastamento temporal, é mais comum, dado a falta de contato com o cenário político então configurado, nos depararmos com esta memória e indagamos: “Como Temer se manteve no poder?”.

E, talvez, com certa indignação, você se pergunte: “Como Bolsonaro ainda está no poder?”.

Temer e o genocida possuíam/possuem uma generosa e perturbadora combinação de fatos. Vamos nos manter em dois.

Em ambos os casos, há uma parcela considerável da população que se manteve/mantém firme contra um impeachment, sem aderir a movimentos de rua, por um certo “orgulho” anti-petista.

O fracasso de Temer, que em 2016 era louvado, juntamente ao seu então camarada Eduardo Cunha, como salvadores de uma nação devastada pela corrupção que emanava do Partido dos Trabalhadores, era consequência direta de uma narrativa capenga que resumia e personificava o mal da imoralidade em uma única sigla. Em resumo, um impeachment de Temer era assumir que Dilma Rousseff havia sofrido um golpe político.

O eleitor de Bolsonaro, de perfil muito mais apaixonado do que o apoiador de Temer, possui um sentimento semelhante. Muitos engajaram em sua candidatura por conta do “perigo PT”. O então deputado precisava ser vendido como um símbolo maior de justiça e moralidade, uma espécie de caçador de marajás, só que... surpreendentemente... mais brega.

Mergulhado em escândalos de corrupção que envolvem da esposa, passando por filhos e advogado e chegando nas vacinas, e sendo responsável direto pela morte de centenas de milhares de brasileiros, Bolsonaro conta com entusiastas que todos os dias na internet fazem um malabarismo discursivo para protege-lo. É muito difícil acreditar que muitos dos seus remanescentes defensores, ou daqueles que nem o apoiam tanto assim, mas se recusam a aceitar a ideia de impeachment, são convencidos pelas próprias palavras.

Muito se mantém pelo orgulho. Assim como no caso de Temer, aceitar que é preciso impeachar Bolsonaro é lidar com o fato de que havia melhor opção em 2018 e que o tal do “Perigo Vermelho” tinha o mesmo efeito do homem do saco, mas em adultos com pouco poder cognitivo.

O segundo aspecto é a Câmara. Temer tinha uma forte base do centrão comprada com generosas emendas. E isto o salvou pelo menos duas vezes, quando os pedidos de cassação de Janot foram enviados aos deputados federais. Rodrigo Maia, na época presidente da casa, tinha em Temer uma fonte que era obrigada a ser generosa, e isto era muito fortuito para o filho de César.

Hoje, Lira tem um Bolsonaro completamente servil. Como um cachorro dócil que venera o dono. O deputado alagoano, que gosta de manter uma fama de cumpridor da palavra com os pares, tem sob seu poder cerca de R$11 bi em emendas parlamentares. Ninguém abrir tanto os cofres públicos para salvar o próprio mandato quanto o Rei da Rachadinha.

O Impeachment ainda está distante, amigos...

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ESTE ARTIGO NÃO REFLETE NECESSARIAMENTE A OPINIÃO DO CCN

 

 

Autor
Jonathan Portela - Doutorando em História pela Universidade Estadual de Campinas, criador do Nota de Rodapé e na inquietude de ser brasileiro.
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