Texto publicado originalmente no site "Diálogos da Fé" por Franklin Félix*

Derrotar o bolsonarismo dentro das comunidades de fé será uma grande e desafiadora tarefa.

“Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes.” – Paulo Freire.

Este texto – de recomeço após ter ficado quase um ano sem escrever para o Diálogos da Fé por motivos de saúde e porque, já um tempo, venho refletindo muito sobre o meu papel dentro do espiritismo – é para os meus amigos e amigas. Escrevo em solidariedade aos meus e não para afrontar os que pensam diferente de mim.

Fiquei muito em dúvida sobre o que escrever nesta semana, mas sabia que queria escrever sobre vitória, esperança, bom ânimo, reconstrução do Brasil. Acontece que, neste intervalo, fui acomodado por mais uma mensagem de uma querida amiga espírita de longa data, confiando estar desiludida com o comportamento de alguns líderes espíritas que, além de ter apoiado o candidato derrotado, assumiu uma postura macartista e persecutória contra aqueles/as (nós) que pensamos diferentes.

Para o espiritismo, o comportamento desses dirigentes pode ser caracterizado como fascinação, um tipo de obsessão espiritual, uma ação direta e constante do pensamento de um espírito sobre a mente da pessoa, paralisando o seu pensamento de tal modo que este aceita tudo o que lhe é passado pelo espírito como a mais pura verdade, reproduzindo, desde informações simplórias aos mais completos díspares, como se fosse tudo fruto da mais profunda sabedoria. O espírito que se dedica à fascinação de uma pessoa é ardiloso pois, primeiro, ele tem que ganhar a confiança irrestrita dela para, aos poucos, ir dominando seu pensamento.

E quando falamos espíritos, estamos nos referindo tanto a encarnados como a desencarnados, portanto, pode-se perfeitamente, e é isso que temos visto, como pessoas fascinadas por um espírito encarnado, chegando a tal ponto de chamá-lo de mito.

A maioria dos amigos/as desta coluna e quem já nos acompanha a certo tempo, sabe que, na ascensão do bolsonarismo, fomos expulsos da rádio espírita que atuávamos a mais de 13 anos, por dizermos que o futuro ex-presidente – na época candidato – era machista, racista, LGBTfóbico e violento (continuamos afirmando e agora com mais motivos).

Mas a mensagem dessa minha amiga me pegou: como reconstruída as bases religiosas e comunitárias com alguém que não só quer nossa expulsão, como em alguns casos, nossa eliminação, morte? Como amar o seu próximo, se o seu próximo não aceita o seu amor?

A sensação que tenho é que todos os violentos, hipócritas, cruéis, incluindo aí os/as religiosos/as e no nosso caso, alguns espíritas, resolveram sair, de uma só vez, dos seus armários e tumbas. Estão se sentindo empoderados/as.

Ver espíritas em marcha com o atraso, com o preconceito, com a ruptura democrática, com a retirada de direitos e com o ódio e fundamentalismo, me faz acreditar que essas pessoas estão bem distantes dos postulados de Kardec e dos ensinamentos de Jesus.

Não tenho respostas sobre essas dúvidas que coloco como pontos para reflexão, mas conhecendo os ensinamentos do Cristo e da doutrina espírita, ousaria afirmar, parafraseando o apóstolo João (4:20) “que se alguém afirmou: “Eu amo a Deus”, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”. Logo, quem está em falha não somos nós e sim aqueles/as que nos odeiam e querem a nossa expulsão por que não suportam lidar com as diversidades e nem ter suas ideias ultrapassadas, contestadas.

Kardec foi ainda mais enfático na questão 350 de O Livro dos Médiuns : “De que serve acreditar na existência dos Espíritos, se essa crença não torna o ser humano melhor, mais benevolente e mais indulgente para com seus semelhantes, mais humilde, mais paciente na adversidade?”

Ele entendeu que desde que uma pessoa se intitulasse espírita, ela já teria motivos suficientes para iniciar essa transformação e reforma íntima (que é um compromisso consigo mesmo), passando a se esforçar para se tornar melhor e contribuir, assim, para o adiantamento da humanidade .

Mas também é verdade que na mesma proporção que os odiosos ganharam suas máscaras caírem, espíritos de todos os cantos do País e de fora dele tem se reunido, presencialmente ou virtualmente, incomodados/as com essa captura do movimento espírita brasileiro pelos setores mais reacionários e fundamentalistas, para expressar seu repúdio às leituras equivocadas e invejadas que estão fazendo do legado de Kardec.

Há cristãos – mal-intencionados – que utilizam argumentos religiosos para defender a barbárie e a violência. Uma das passagens preferidas dessa “gente de bem” é a em que Jesus disse não ter vindo trazer a paz, mas a espada.

Não há paz sem voz e Jesus já sabia disso. Quando usou a analogia da espada, Jesus estava se referindo ao império romano (dominação) e que a pacificação só seria possível se houvesse conflito e divisão às obediências e poderes, rompendo com a política de morte da época. Jesus tornou-se o centro da separação e rompeu com a manutenção das relações protegidas pelo legalismo.

Uma das possibilidades que a Doutrina Espírita apresenta para o enfrentamento da violência é a educação em suas múltiplas interfaces. O Espiritismo, essencialmente educativo, tem como objetivo libertar e proclamar o reino de Deus – de justiça, amor e paz – para todos/as, mas a sua missão não poderá́ ser realizada em um ambiente de acomodação e “paz” que só́ atendem a alguns poucos.

O impulso de transformação apresenta na doutrina espírita – para além dos fundamentalismos e articulações reacionárias que infelizmente disputam os ensinamentos de Kardec – defende que uma sociedade justa e livre se dará por meio da implantação de políticas públicas que valorizem a cultura da não-violência, o respeito à diversidade e a todas as pessoas como portadoras de direitos.

As forças progressistas dentro da doutrina espírita serão o futuro de uma doutrina livre e que cada vez mais estarão integradas com o povo e suas conquistas sociais.

Por fim, uma pequena diferença de votos entre os dois candidatos, também significa uma grande vitória, porque foi uma vitória apesar do orçamento secreto, apesar das compras de votos, das falcatruas das prefeituras, da interferência da Polícia Rodoviária Federal, das fakenews.

Uma vitória com as cores do povo!

Uma vitória para todas as pessoas que acreditam no bem-viver, na conquista de direitos para todas as pessoas, na democracia radical.

Uma vitória contra o ódio, a intolerância e a violência.

Uma vitória de todas as defensoras/es dos direitos humanos.

Uma vitória do estado laico.

Derrotar o bolsonarismo dentro das comunidades de fé será uma grande e exigente tarefa para que o amor vença o ódio, a verdade vença a mentira e a esperança vença o medo.

Não se constrói luta sem a(fé)to!

Estamos juntos/as e não estamos sós.

*Franklin Félix é psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.


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