A Bolívia inaugurou há algumas semanas o seu novo Congresso Nacional. Trata-se de um edifício envidraçado atrás da sua sede antiga. Por dentro, há ilustrações, imagens e detalhes que remetem aos povos andinos. Na Câmara dos Deputados, existe uma enorme representação do deus Inti (o original encontra-se na porta do Sol de Tiahuanaco), o qual se destaca perante o plenário. As bancadas possuem desenhos geométricos que aludem à tapeçaria quechua. No Senado, por sua vez, foi posto o Brasão da República, mas ladeado por representações das religiões andinas. 

Esses detalhes foram escolhidos para romper com o eurocentrismo presente nas edificações erguidas no século XIX. Tanto o Palácio Queimado (Executivo) quanto a Asamblea Plurinacional foram projetados em estilo neo clássico, com colunas, abóbadas e alegorias. A sede do Executivo (ali ao lado) também se mudou quando o então presidente Evo Morales inaugurou a Casa Grande del Pueblo, em 2018. Durante o golpe de 2019, os novos mandatários acusaram o governo anterior de racismo por excluir os povos da planície e o passado hispânico, porém ocultavam os silenciamentos impostos aos povos locais durante séculos. Com a eleição de Luís Arce, em 2020, a presidência da República retornou ao edifício neoandino localizado atrás do antigo palácio. 

No caso do Congresso, os ataques são os mesmos: a "exclusão branca" ou camba, além de se dizer que os novos prédios não ornam com a arquitetura colonial da Plaza Murillo. Apesar da ofensa seletiva em relação ao passado, os patrimônios daquele logradouro não foram destruídos. Pelo contrário! Foram preservados e transformados em "anexos históricos", ou seja, edificações voltadas para a educação da população local. Vale lembrar que há o projeto de musealizar os antigos prédios, além de ainda servirem para cerimônias específicas. O passado está sendo disputado entre aqueles que querem dar espaço aos povos indígenas e aos trabalhadores e aqueles que insistem em reverenciar os espanhóis e a cultura europeia. 

O patrimônio em questão não foi negligenciado, apenas ressignificado, pois não há mais espaço para uma sede com traços tão excludentes. Não há como falar em democracia se velhos hábitos ainda são impostos. Apesar dos pesares, as edificações oitocentistas não deixam de ser fontes históricas e, portanto, devem se tornar um meio para auxiliar a população local a refletir sobre o (seu) passado. 

Sendo bem incisivo, sinto que a oposição reacionária boliviana teme por perder sua hegemonia e, para tanto, agarra-se a todos os símbolos do passado colonial que ainda perduram. Claro que muito dessa elite tem suas origens no passado hispânico e contribuíram para branquear o governo de 1825 (com a independência) até a eleição de Evo Morales em 2006. Apesar das mudanças ocorridas após 1952 (com a Revolução do MNR e a reforma agrária), os golpes e governos militares que se sucederam entre 1964 e 1982 trouxeram retrocessos que se consolidaram com o neoliberalismo dos anos 1990 e 2000. 

O novo congresso boliviano é a segunda maior casa legislativa da América Latina, o que (longe de qualquer bairrismo ou debate estético) é significativo para um país que começou a crescer a partir do momento em que empreendeu um rompimento com o passado hispânico. O reconhecimento da história e dos direitos das populações indígenas são um passo importante no projeto de uma Bolívia democrática e aberta à parcela mais pobre de sua população. Apesar da permanência de um reacionarismo elitista/racista, vemos que a resistência a um passado colonial segue viva e forte. 

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Autor
Roger Camacho - Doutor em História pela UFRGS, mestre pela UNIFESP. Professor na rede pública estadual e interessado em temas como gênero, Trajetórias de vida, branquitudes, memória e patrimônio.
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