Na primeira parte desta análise fiz uma breve apresentação da temática e de como Giovanni Gentile pensa a história da Itália e de que maneira, através desta, irá defender a necessidade de um regime fascista naquele país. Agora, entraremos nas questões mais “filosóficas” propriamente ditas, mas que também servem para embasar este apoio.

A justificativa filosófica do fascismo

O filósofo italiano Giovanni Gentile buscou criar um sistema filosófico que, em sua visão, resolveria os problemas da filosofia, o que pode soar arrogante e de certa forma é, mas também algo comum entre os filósofos. Fortemente influenciado novamente por Hegel, em resumo, dirá que a maneira de resolver a cisão entre um idealismo abstrato e um materialismo exacerbado, cisão presente em toda a história da filosofia, é através da ação concreta a partir da racionalidade humana, como algo universal e não situado em alguma particularidade. Sendo a ação o centro do seu sistema, portanto, lhe dá o nome de atualismo.

Gentile identifica aquelas duas linhas na história da filosofia – uma idealista e outra materialista – e também algumas tentativas, já desde Platão, de unificação destas, e Hegel é o que chega mais perto disso de fato, sendo incapaz de atingi-la totalmente. O próprio filósofo alemão usará o conceito de dialética para determinar esta unidade de determinações opostas entre si, que se tornou o uso mais comum deste conceito hoje e do qual Gentile parte para afirmar que somente sua proposta realmente é capaz desta unidade dialética.

De toda forma, segundo o filósofo fascista, a dialética hegeliana e todas as anteriores seriam dialéticas mortas pois não realizam essa unificação na prática, na vida, ficando, quando muito, num âmbito abstrato; como dissemos, é na ação a partir da racionalidade universal que esta unidade se realiza de fato, não nas ideias.

Um dos principais textos para fundamentar este sistema filosófico, A teoria do espírito como puro ato, foi escrito em 1916, portanto, antes da ascensão do fascismo e de sua adesão ao regime. No entanto, como veremos adiante, fundamenta tanto quanto a unificação moral do povo italiano o apoio do filósofo aos fascistas.

A justifica política do fascismo

O Estado tem uma profunda tarefa moralizante, sendo sua principal razão de ser, segundo Giovanni Gentile. Como vimos anteriormente, é através dele que se concretiza a unificação de um povo de maneira geral, e o fascismo reivindicava esse Estado forte e presente na vida do povo italiano de modo a unificá-los, de acordo com seus próprios critérios: comandava desde a divisão liberal dos três poderes até os sindicatos.

Penso ser importante salientar que a relação entre indivíduo e Estado, segundo o filósofo fascista, é marcado pela autoridade estatal sobre o povo, que deve possuir consentimento da maneira mais espontânea quanto possível e menos coercitiva. Apesar que ele mesmo reconhece que nunca haverá uma situação política estatal sem nenhum tipo de coerção. Suas palavras não parecem uma defesa direta e clara de um Estado autoritário, com um profundo controle coercitivo da população, como foi o fascismo. No entanto, em sua obra Gênese e estrutura da sociedade, numa pequena nota de rodapé, quase como se quisesse esconder do leitor, Gentile afirma que a força repressiva policial é uma força moral de unificação de um povo e, portanto, não pode ser considerada coercitiva.

Cabe frisar que, como eu vejo, neste ponto é talvez onde o filósofo mais “desvia” de seus estudos hegelianos. Afirmar que o Estado tem uma tarefa moralizante vai contra muito do que Hegel disse; para este filósofo, inclusive, o Estado é o âmbito ético por excelência, não moral. É no Estado que os indivíduos agiriam de acordo com seus interesses e buscando saciar suas necessidades particulares, e a unificação do povo, seja nas uniões de trabalho (como os sindicatos, apesar de Hegel não utilizar este conceito) ou nas próprias instituições estatais não viria como uma supressão de suas individualidades, ideia presente em Gentile.

Autoria
Júlio César Rodrigues da Costa é Mestre em Filosofia pela UNESP, Professor da rede estadual do Estado de São Paulo e colaborador do CCN Notícias.
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