Já faz alguns anos que Bolsa de Valores é apontada como um medidor de sucesso econômico. Políticos e profissionais dos sistemas financeiros passaram a sempre condicionar o crescimento das Bolsas em um futuro próximo a alguma mudança politica ou reforma econômica voltada para o mercado. Mas será que a Bolsa subindo e se valorizando gera o crescimento econômico como uma consequência natural?

Ao analisarmos os números da economia brasileira podemos observar que a IBOVESPA (Índice que mede a valor das ações na Bolsa de São Paulo), hoje com aproximadamente 96 mil pontos, pode chegar a 100 mil pontos até o final do ano o que a faria recuperar todas as perdas do primeiro semestre devido à pandemia, uma ótima noticia para quem tem investimentos na Bolsa.

Já para o resto do Brasil, a recuperação que pode ser observada na Bolsa não se reflete na economia real, já que a queda prevista do PIB está entre 6 e 9% de acordo com as projeções internacionais. É o pior resultado das últimas décadas. O desemprego se aproxima de 13% da população somados os desocupados e coloca, nesta semana, o Brasil como tendo pela primeira vez na história a maior parte de sua população desempregada ou inativa.  

Se olharmos para os últimos dez anos podemos ver o nosso pico de produção industrial em Maio de 2011. Em maio de 2020 temos uma retração de mais de um terço se comparada aquele ano, mostrando desindustrialização no Brasil. O desemprego de dezembro de 2011 foi de 4,7, o menor na série histórica. Porém, naquele mesmo ano, a Bolsa fechava com uma desvalorização de 18%. (Fonte: IBGE).

Deste modo, podemos ver que a valorização do IBOVESPA não é diretamente relacionada à economia real, como alguns discursos tentam levar a crer. Em muitos casos as Bolsas funcionam em uma dinâmica própria. Levando em consideração os últimos anos de baixo crescimento do PIB e o recuo de investimentos estrangeiros, a Bolsa tem robustos motivos para não entusiasmar os investidores.

A resposta à pergunta inicial pode estar na mudança de perfil do investidor que, nos últimos anos, se “popularizou”, atraindo um número maior de investidores, em sua maioria, de classe média. Segmento que, majoritariamente, estava fora da Bolsa. Só em 2019, o número de investidores de pessoa física dobrou em relação ao ano anterior e a percepção disso se dá no fato de que se tornou realmente difícil não receber propagandas de corretoras de ações em diferentes plataformas digitais. Para deixar evidente o quanto se popularizaram as propagandas por novos investidores, podemos lembrar do caso da “Bettina”, que gerou polêmica e virou meme por seu discurso quase milagroso a respeito de seus investimentos.

Esse novos milhares de negociadores na Bolsa, embora não representem individualmente uma grande quantia financeira, somados, vêm garantido bilhões em novos recursos para a BOVESPA. Recursos que valorizam a Bolsa independente dos números da economia. Agora, resta saber se um crescimento da bolsa sem o acompanhamento da economia real vai se sustentar por muito tempo.

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