O dia 15 de Outubro é conhecido por ser o Dia dos Professores, ocasião em que jornais, programas de televisão e a internet são inundados de mensagens - inclusive, de gosto duvidoso - para exaltar a figura dos “mestres”. Quantas imagens de lousas e maçãs recebemos nas redes sociais, por exemplo? Quantas histórias de “superação” envolvendo educadores cujo sentimento de abnegação seria uma forma de compensar as precárias condições sociais e econômicas a que eles e seus alunos estão submetidos?

“Educar é um ato de amor”, citam a partir do pedagogo Paulo Freire, constantemente vilipendiado de forma vil e injusta no Brasil. No geral, há apego somente ao aspecto sentimental dessa proposição, ignorando os muitos outros elementos que Freire abordou ao longo de sua trajetória - afinal, educar também é um “ato de coragem”.

Gostaria de romper com o sentimentalismo e exaltar o que julgo mais prioritário.

Um salve a todas e todos que seguem na luta em prol de uma educação crítica e emancipadora; a quem procura pensar, sempre, no que é melhor para alunas e alunos; a batalhadoras e batalhadores diários no sentido de combater as já precárias condições de trabalho (desvalorização salarial, por exemplo) e estruturais das unidades escolares; àquelas e àqueles que enfrentam o autoritarismo de governos, a brutalidade da repressão (PM e GCM) e a desconfiança de quem nos reduz a "vagabundos" por não aceitarmos determinadas imposições.

Ser professor não é, simplesmente, um “ato de amor”: é um ato político. É resistir e combater.

E, mais do que nunca, na atual conjuntura, se tornou um ato de resistência. Resistir aos ataques por parte do Estado; às propostas de privatização da educação, transformando-a em mercadoria; à militarização das escolas e à censura -- os projetos de "Escola Sem Partido" por aí, que, embora não aprovados, fortaleceram um sentimento de perseguição à categoria. Lutamos por melhores condições de trabalho, por valorização salarial e até pela vida - como as greves do primeiro semestre de 2021, quando as aulas presenciais foram impostas em meio ao descontrole pandêmico e à ausência de vacinas.

A você, que deseja uma "educação de qualidade" para suas crianças: procure apoiar nossas demandas de luta. Nos últimos anos, por exemplo, profissionais de educação da rede pública municipal de São Paulo fizeram mobilizações e greves contra o desmonte da Previdência - novamente, sob ataque, agora pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB). Nós, professores, somos trabalhadores e demandamos a garantia de direitos duramente conquistados por meio de muita luta. O apoio da comunidade escolar (responsáveis, alunos) foi e é fundamental!

A você, professor ou professora que prefere se abster: construa as lutas com a sua classe. Melhores condições são alcançadas, sempre, com ações coletivas. Você, como trabalhador, também tem responsabilidade nesse processo!

Sem pieguice, sem discurso de que "professor é a profissão mais importante do mundo": é uma profissão significativa como muitas outras, mas que é perseguida e precarizada propositalmente por questões de projetos políticos. Como bem enfatizava Darcy Ribeiro: a crise na educação é um projeto - e esse projeto passa, também, pela desvalorização brutal de profissionais de educação.

Mais do que uma celebração, o 15 de Outubro deveria ser lembrado como um dia de luta.

*O Nota de Rodapé é um espaço de crítica e construção do conhecimento das Ciências Humanas, assim como um lugar para promover os debates ligados a pesquisa científica. Siga-nos no Instagram @nota_de_rodape

Autor
André Fernandes - Professor de escola pública, mestre e graduado em História pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Um inconformado convicto.
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