O incêndio da estátua do bandeirante Borba Gato, localizada na Zona Sul da cidade de São Paulo, gerou debate entre defensores e os que condenam a ação. Um dos argumentos em tom negativo versa sobre o "apagamento da história" ao atacar o símbolo.

Primeiramente, é importante apontarmos a problemática da memória coletiva. Além de uma construção, não é estática e está com constante disputa. Monumentos são aportes de memória, abrangendo a simbologia de determinados fatos ou eventos históricos. O Borba Gato é parte da memória que se construiu para São Paulo: a do bandeirantismo enquanto seu "mito fundante".

A estátua não é a única referência ao bandeirantismo em São Paulo: o palácio do governador, por exemplo, é o Palácio dos Bandeirantes; duas das principais rodovias são a Anhanguera e a Fernão Dias; no Ibirapuera, temos o "Monumento às Bandeiras"; há a Rede Bandeirantes, emissora popularmente conhecida por "Band"; anteriormente, existia a Universidade Bandeirantes (UNIBAN), que foi absorvida, em 2011, pela Anhanguera Educacional; bandeirantes dão nome a ruas, avenidas... Toda essa simbologia não é acaso e procura conferir uma conotação positiva ao bandeirantismo.

No entanto, é preciso considerar que, enquanto determinados aspectos simbólicos são colocados em evidência, outros são ocultados. A memória do bandeirantismo também carrega um histórico de violência e de apagamentos. Os bandeirantes, diferente do que o mito sugere, não foram heróis: eram sujeitos que, de forma brutal, perseguiram e massacraram indígenas e negros – que possuem longo histórico de resistência contra a colonização europeia no território que viria a se tornar o Brasil. O “Monumento às Bandeiras”, por exemplo, apresenta 32 personagens: os bandeirantes são apresentados em posição de liderança, como “desbravadores”; indígenas e negros, postos em sequência, estão em posição de submissão e inferioridade.

Na medida em que São Paulo destaca a memória do bandeirantismo, ocorre um sistemático apagamento da memória dos povos indígenas que aqui viveram ao longo de séculos. Trata-se, portanto, de mais uma forma de violência contra esses povos - que também foram oprimidos no campo simbólico.

O espaço público também está em disputa e se faz necessário considerar a existência de uma demanda, cada vez mais presente, de questionamentos em relação a símbolos de um passado colonial e escravagista. Em 30 de junho de 2021, por exemplo, manifestantes colombianos derrubaram estátua de Cristóvão Colombo, cuja simbologia frequentemente é relacionada ao "descobrimento da América" – expressão que, por si só, traz uma série de apagamentos e violências. Nos EUA, uma estátua de Colombo também foi derrubada em 2020, quando da explosão de manifestações antirracistas após o brutal assassinato de George Floyd. No Reino Unido, ainda em 2020, no bojo das manifestações antirracistas, a estátua de Edward Colston, que fez fortuna comercializando escravizados, também foi derrubada; em seu lugar, foi instalada estátua de uma manifestante negra com o punho erguido – retirada pouco tempo depois.

O incêndio do Borba Gato, portanto, não é um evento isolado. Entre historiadores e especialistas da área de patrimônio, existem debates sobre as melhores formas de se lidar com os incômodos de determinadas memórias: destruição de símbolos? Conservação, mas com os devidos alertas sobre o que o monumento representa? O assunto tem sua complexidade.

A ressignificação da memória coletiva é um processo que pode se dar de diferentes maneiras. A destruição de símbolos e monumentos é uma delas. É fundamental que encaremos a questão com criticidade. Há inegável demanda de contestação de símbolos relacionados à memória coletiva – que não deve ser “sacralizada”.

Autor
André Fernandes - Professor de escola pública, mestre e graduado em História pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Um inconformado convicto.
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