A peça "Eles não usam Black-Tie" abriu as portas para que Lélia Abramo (1911 - 2004) ganhasse prestígio nos palcos. Como um evento que possibilitou a construção de laços com diretores e outros atores, esse trabalho se tornou um marco em suas memórias. Contudo, isso não aconteceu somente pela sua expressividade cultural, mas também pelo caráter político do seu enredo. Seu autor, Gianfrancesco Guarnieri (1934 - 2006), abordou temas como a importância da organização dos trabalhadores, a defesa do direito à greve e os embates ocorridos no seio da classe operária. 

Lélia já tinha experiência com a vida sindical, pois atuara junto aos Comerciários na década de 1930 e fez parte, com seus irmãos, da Liga Comunista Internacionalista, um grupo trotskista fundado em 1932. Ela também tinha contatos com membros do PSB fundado em 1947. A nova atriz já era militante de esquerda e defendia um projeto de classe pautado na igualdade e na supressão da exploração dos trabalhadores. Após "Eles não usam Black-Tie", ela veio a trabalhar em outras peças, no cinema e na televisão, mas chegou a sofrer boicotes devido à sua militância sindical.  

Quando Lélia aderiu ao projeto do PT, ela já era presidenta do Sindicato dos Atores e Técnicos de Espetáculos e Diversões de São Paulo (SATED-SP) e trazia consigo todos os pertencimentos e vivências modelados no decorrer de sua vida. As greves de 1978, 1979 e 1980 foram um momento em que a atriz ganhou visibilidade no meio político, pois a líder de agremiação se aproximou dos metalúrgicos do ABC e auxiliou tanto nas suas mobilizações (com apoio logístico e doações de alimentos) quanto nas suas comemorações (o 1° de Maio e outras festas, nas quais intermediou o contato dos operários com artistas e músicos). Todavia, esse fato lhe custou o seu emprego, o que marcou as suas memórias sobre aqueles anos. 

Vale lembrar que Lélia não nasceu atriz e muito menos militante, mas se tornou por causa dos laços estabelecidos em um determinado espaço (família, amigos, etc.) combinados com aquilo que lhe era possível num determinado momento (ser convidada para uma peça que estava estreando, por exemplo). Ela foi apresentada ao trotskismo pelos seus irmãos e auxiliou um deles na criação de um grupo de teatro. A entrada no PT e o reconhecimento de seus pares foram frutos da bagagem política que trazia e da fama construída na televisão, no teatro e no cinema. 

Quando ela botou suas memórias no papel em 1997, lembrou de dar centralidade para o campo político e o profissional. A própria capa do seu livro traz um momento no qual ela está num camarim se maquiando. Mesmo assim, temas como a origem nacional de sua família, e a atuação de diferentes grupos profissionais não deixam de ter o seu espaço no texto. Se o teatro e o trotskismo eram o seu "norte", igualmente o eram a sua italianidade e os seus projetos de classe. 

Abramo geralmente é lembrada como a atriz de novelas ou como a fundadora do PT, mas essas imagens não dão conta de contemplar a diversidade de suas vivências. Assim como os demais sujeitos históricos, uma homenagem póstuma ou mesmo uma biografia não são suficientes para abarcar a complexidade de fatos e situações de uma vida e isso que torna tão fascinante estudá-la. Lélia não foi somente atriz, ou militante, mas um sujeito com emoções, racionalidade e impulsos, projetos e campos de possibilidades. Por essa e outras razões, devemos respeitar o legado que ela nos deixou, ainda mais em tempos tão confusos. Que sua vida nos inspire. 

Lélia Abramo, presente!

Autor
Roger Camacho - Doutor em História pela UFRGS, mestre pela UNIFESP. Professor na rede pública estadual e interessado em temas como gênero, Trajetórias de vida, branquitudes, memória e patrimônio.
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