Os desafios que Ciro Gomes tem não são pequenos. A proposta dele, desde 2018, em que ocupou o terceiro lugar na Eleição Presidencial – com respeitáveis 12%, vem sendo a mesma: fortalecer seu nome como alternativa progressista de centro-esquerda à polarização de PT e Bolsonaro, que foram para o segundo turno em 2018 e, novamente, lideram as pesquisas para 2022.

Embora seu plano não tenha tido sucesso em 2018, ele fica com o mérito de superar Geraldo Alckmin – que também vinha com a proposta de ser uma alternativa ao PT e a Bolsonaro, só que pela centro-direita liberal e ainda contava com o apoio da maior parte dos partidos políticos, empresários, grupos de mídia e setores financeiros.

Para 2022, a uma primeira vista, o caminho para o segundo turno de Ciro parecia ter sido completamente obstruído pela candidatura de Lula – que centraliza a maior parte dos votos da esquerda e concentra as atenções devido à polarização com Bolsonaro, mas a entrada de Lula no páreo foi muito mais prejudicial à centro-direita e até mesmo ao Bolsonaro do que ao Ciro.

Bolsonaro – que já vinha perdendo popularidade devido à péssima condução da crise sanitária e econômica que vive o Brasil – viu Lula passar a liderar todas as pesquisas para 2022 assim que teve seus direitos restituídos com a anulação das sentenças da Lava Jato, o que fez Bolsonaro tentar mudar o discurso para estancar a sangria, o que até o momento não vem surtindo efeito.

A centro-direita, que estava repleta de presidenciáveis e vinha se destacando como uma oposição ao Governo Bolsonaro, sofreu dois reveses: o primeiro deles com o racha na eleição da Câmara para a sucessão de Rodrigo Maia e, em seguida, a elegibilidade de Lula. Agora, João Doria e Luciano Huck – os nomes mais cotados desse setor – parecem ter se amedrontado com a desorganização da centro-direita e a força eleitoral de Lula. Só o ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, parece ainda ter pretensões ao cargo presidencial, mas como ele sempre tem pontuação ruim nas pesquisas de primeiro turno pode acabar se conformando em ser vice.

Deste modo, a provável candidatura de Lula, embora tenha acabado com as chances de Ciro expandir seus 12% de votos para a esquerda e chegar, finalmente, ao segundo turno, também serviu para o enfraquecendo de Bolsonaro – que está sendo abertamente mais cobrado por amplos setores da sociedade. Por fim, a possibilidade da candidatura de Lula praticamente pôs fim às chances da centro-direita de ter candidato próprio. Neste momento, Ciro Gomes tem um corredor livre que vai da centro-esquerda trabalhista à centro-direita e os partidos de direita já trabalham com essa hipótese.

Diversos políticos da direita brasileira que pretendem se opor ao PT e ao Bolsonaro passaram a dar sinais de querer se aproximar de Ciro Gomes. Seu nome foi mencionado por Tasso Jereissati e Aécio Neves – importantes articuladores do PSDB, e por Mandetta que acabou assumindo o papel de porta-voz do DEM para esses assuntos após a saída de Rodrigo Maia para o MDB. O que passa na cabeça desses políticos, assim como na de Ciro, é que embora o Lula esteja garantido no segundo turno, talvez Bolsonaro – derretendo nas pesquisas – não esteja, possibilitando Ciro, com o apoio da direita, a chegar ao segundo turno e ser bem mais competitivo do que Bolsonaro na disputa contra Lula.

Mas essa composição não é fácil: Ciro Gomes tem um projeto antiliberal muito bem desenhado e está evidente que a direita liberal quer um enfraquecimento do discurso para poder fechar o acordo. E Ciro vem dando alguns sinais de caminhar nesse sentido, a exemplo, em uma entrevista recente ele disse que suas propostas serão negociadas com o Congresso e focou suas críticas a Lula por um viés moral, deixando de lado questões politicas e econômicas, nas quais Ciro conseguia fazer uma critica pela esquerda.

É importante ressaltar que se esse acordo ocorrer e Ciro tiver apoio de partidos de direita como DEM, PSDB e Cidadania, nós devemos entender que os liberais estão fragilizados de tal modo que a única chance eleitoral deles é sem um candidato liberal encabeçando a chapa. Talvez Ciro tenha um papel mais importante em 2022 do que teve em 2018, mas se isso vai significar que ele tem chances reais de ir para o segundo turno ou mesmo se ele vai ter uma posição de destaque em um eventual segundo turno sem ele é cedo para dizer.

 

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