Os negros não comemoram o 13 de Maio, Dia da Abolição dos Escravos no Brasil, como dizem os documentos históricos. A burocracia pode até ter formalizado o fato, mas na prática, a história foi outra.

A imagem cultuada da princesa branca, de generosa e redentora, foi uma farsa bem contada. Na verdade, uma artimanha empreendida pela elite escravocrata da época, que se via diante de uma crise política e econômica intensas, pressão internacional e de inúmeras contestações internas vindo das lutas de resistência dos negros escravizados. A escravidão no País já estava com os seus dias contados. Com ou sem a Lei.

A chamada “Lei Áurea” tramitou no Parlamento em apenas seis dias e foi sancionada em 13 de maio de 1888 pela Princesa Isabel (1846-1921), que extinguia, pelo menos no papel, a escravatura no Brasil.

No entanto, o ato fez com que os negros saíssem das senzalas e fossem direto para as favelas, onde vivem até hoje largados à própria sorte, sem estrutura, sem saúde, sem educação, sem emprego, sem terra, sem cidadania. E para completar o cenário trágico, o racismo endêmico e impregnado no DNA do brasileiro ainda persiste.

No Brasil de hoje, as chacinas de negros e negras todos os dias no Brasil, são provas da herança maldita. De mercadoria e patrimônio da elite, o negro e a negra passaram a ser um “problema” para sistema. E problemas, como quer a elite, historicamente, são descartados.

Grito de repúdio

No último dia 5 de mio, Jair Bolsonaro e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, reuniram-se para uma longa conversa. No dia seguinte, 6 de maio, a polícia carioca invade a favela do Jacarezinho para uma “operação” resultando na morte de 28 pessoas.

Duas notícias, aparentemente, desvinculadas uma da outra, que na realidade, fazem parte do mesmo pacote. São público e notório que Jair Bolsonaro está contrariado com o STF. No ano passado, o Supremo decidiu que as incursões policiais no Rio deveriam ser informadas com antecedência e que ocorreriam, apenas, após a anuência do Ministério Público.

Bolsonaro sabe que precisa de força política para realizar suas vontades. Pergunto, “que melhor maneira teria para demonstrar que opera no governo, na polícia, na milícia, em fim, em todas as instâncias do Rio?” Claro, Bolsonaro apontou para o “problema” e o fez por meio do descarte de corpos de pobres e negros. Corpos que, desgraçadamente, passam desapercebidos pelas massas e pelas elites. Sim, porque, “bandido bom, é bandido morto”, não é mesmo?

A ideia de que as favelas, as comunidades, as periferias são densamente povoadas por “hordas” é reforçada e construída todos os dias. Mas, a verdade é que são territórios densamente ocupados por trabalhadoras e trabalhadores, a maioria de negras e negros.

As hordas de saqueadores e bandidos habitam os corredores palacianos e as mesas dos restaurantes chiques. Portanto, o que assistimos no dia 6 de maio não foi “incursão da força do Estado em busca de criminosos que estavam aliciando crianças e adolescentes para o crime”. Dos 28 assassinatos, a maioria nada tinha a ver com tráfico ou aliciamento. Foi uma ação orquestrada e planejada para assassinar e descartar corpos pertencentes a uma parcela significativa da população com propósitos que a Justiça haverá de investigar e revelar.

Repudio, veementemente, esses 28 assassinatos no Jacarezinho, que se somam à tragédia das mais 420 mil mortes causados pelo omissão do governo, diante da pandemia do Coronavírus.

O Estado brasileiro continua o mesmo. Da elite decadente do final do séculos 19 para os atuais agentes (aqueles ocupantes do Executivo e do Legislativo), a prática da omissão, da violência e do descarte do povo preto e pobre persistem.

Ah! Só pra lembrar; os negros e negras desse país comemoram as lutas de resistência contra a escravidão no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Dia do aniversário de Zumbi dos Palmares.

*Anatalina Lourenço, articulista do CNN Notícias; Professora, diretora da APEOESP e Secretária Nacional de Combate ao Racismo da CUT.


 

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