Em uma tarde comum de 1973, acontecia uma conversa entre duas moradoras da periferia sul de São Paulo. Elas estavam lavando roupas em tanques compartilhados, quando passaram a debater a alta no preço dos produtos de necessidade básica. Dalí, decidiram organizar um abaixo-assinado e enviá-lo às "autoridades". Uma delas era Ana Dias, esposa do sindicalista Santo Dias da Silva, e a outra, era Irma Rossetto, uma ex-freira e pedagoga que chegara ao bairro alguns anos antes. Mal sabiam elas que aquele documento daria o pontapé inicial para a criação do Movimento do Custo de Vida (MCV). Claro que isso não estava dado em 1973, mas aquele movimento ganhou visibilidade nos anos seguintes e chamou a atenção de grupos de estudantes e organizações de esquerda. Irma e Ana eram algumas de suas representantes. 

A pedagoga já tinha experiência com militância política, pois ajudara a esconder perseguidos políticos nos anos em que foi religiosa. Ela havia chegado a São Paulo em 1959 com o intuito de estudar, tornou-se freira em 1965 (com o nome de Irmã Angélica), permanecendo assim até 1971, quando optou por deixar o hábito e morar em Vila Remo. Ela não estava nos palanques e piquetes dos movimentos estudantis ou nas passeatas organizadas pelas oposições à ditadura, mas atuara de dentro do convento e, posteriormente, em sua casa e nas ruas de seu bairro. 

Irma chegou a participar de atos, anos depois, em nome do MCV e sofreu (junto com suas companheiras e vizinhas) a repressão da polícia em 1978, na Praça da Sé. O grupo havia decidido lançar a sua candidatura à ALESP naquele ano como estratégia para a realização de suas demandas, apesar de defender que a política das ruas não deveria se misturar com as casas do poder. 

Por conta disso, Irma sofreu críticas, mas permaneceu no movimento e participou da fundação do PT, em 1980. De deputada estadual ela passou para a Câmara e lá permaneceu por três mandatos seguidos (1983 a 1987, 1987 a 1991, 1991 a 1995). Atuou na Assembleia Nacional Constituinte (ANC) e foi apontada por movimentos feministas e grupos de mulheres como uma representante das pautas de gênero. Seu passado na Igreja rendeu notas de desconfiança por parte de alguns grupos. 

Depois que deixou a Câmara, ela trabalhou com Tecnologia e Comunicações e, em 2001, fundou o Instituto de Tecnologia Social com o objetivo de inserir jovens e trabalhadores no mercado de trabalho ao promover a educação digital. 

O sobrenome Passoni veio do casamento com o professor e antropólogo Armelindo Passoni. Com ele teve dois filhos e mudou-se mais de uma vez por causa da violência crescente na periferia sul de São Paulo dos anos 1980. 

Assim como qualquer indivíduo, Irma não é um ente linear, mas agiu e trabalhou por meio daquilo que lhe era possível em determinados momentos. Ela não nasceu militante, mas tornou-se, na medida em que aderiu a um projeto de classe no decorrer de seus estudos e trabalhos de base. Ela passou a se aproximar das demandas de gênero posteriormente ao dialogar com donas de casa, mães da periferia e estudantes de classe média. Por fim, acabou atuando com tecnologia. Nossa personagem não pensava nisso quando saiu de Concórdia (SC) em direção a São Paulo. Tal projeto foi elaborado e desenvolvido no decorrer de sua vida. 

Ao observar a trajetória de Irma Passoni, notamos como a política não está apenas nos palanques, mas também no cotidiano, nas conversas de vizinhos e nos cursos para jovens. Se ela é tida por muitos como algo masculino, é porque não é observada de outros ângulos. Muitas foram excluídas das casas legislativas, mas nem por isso deixaram de agir pelas margens, realizando abaixo-assinados, mediando conversas e eventos ou auxiliando na fuga de presos e perseguidos políticos.

Irma Passoni nos ajuda a refletir sobre esse "outro lado" e, portanto merece ter a sua trajetória lembrada e celebrada.

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ESTE ARTIGO NÃO REFLETE, NECESSARIAMENTE, A OPINIÃO DO CCN NOTÍCIAS

Autor
Roger Camacho - Doutor em História pela UFRGS, mestre pela UNIFESP. Professor na rede pública estadual e interessado em temas como gênero, Trajetórias de vida, branquitudes, memória e patrimônio.

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