No dia 20 de outubro de 2020, o Senado aprovou as indicações feitas pelo presidente Jair Bolsonaro para compor a nova diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Pois bem, a partir daquele dia, a Anvisa, uma Agência que tinha a “Ciência” como pedra fundamental, passou a ser, diante novo perfil de sua direção, um órgão subserviente aos interesses políticos e ideológicos de Bolsonaro.

A nova diretoria da Anvisa é composta pelo diretor-presidente, o Contra-Almirante da Marinha, Antônio Barros Torres, um conhecido “negacionista”; o advogado Alex Machado Campos, um servidor da Câmara dos Deputados indicado pelo Centrão; a farmacêutica Meiruze Sousa Freitas, uma servidora de carreira da agência; e a mais emblemática das indicações bolsonaristas, a médica e advogada Cristiane Rose Jourdan Gomes, que já publicou em suas redes sociais, links em defesa da hidroxicloroquina e conteúdos com críticas ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e ao movimento antifascista. Cristiane Jourdan substituiu Marcus Aurélio Miranda de Araújo, porque este desagradou Bolsonaro ao votar contra a liberação de mais agrotóxicos, uma das demandas do setor do agronegócio. Vale lembrar que a Anvisa, o Ibama e o Ministério da Agricultura, sob a batuta de Bolsonaro, liberaram em 2019, 474 novos tipos de pesticidas, fungicidas e herbicidas. Em 2020, liberaram mais 493 venenos. Com essas práticas, cai por terra os argumentos de que a Anvisa é uma “agência de Ciências”. Na verdade, tornou-se uma agência a serviço do governo Bolsonaro.

Além disso, a Anvisa também adora um espetáculo midiático. Pergunto se o leitor não se lembra do show que seus diretores deram, ao anunciar a liberação da vacina Coronavac, num domingo, dia 17 de janeiro deste ano, ao vivo, para se auto-valorizarem diante de uma audiência de milhões de brasileiros? Foram mais de 5 horas de auto-promoção. À época, fiz comparações com o show que os promotores da Operação Lava Jato faziam todos os dia na mídia. Muita gente que considero inteligente não acompanharam o raciocínio e, ao contrário, me criticaram. Diziam que a Anvisa era uma agência científica. Infelizmente, eu não estava errado. A Anvisa tem perfil ideológico negacionista, sim, e tem, na maioria dos seus diretores, defensores dos interesses das multinacionais e do agronegócio.

Como se não bastasse, agora, a Anvisa está atrasando – e por uma questão puramente ideológica – a vacina russa Sputnik V. Oficialmente, alega “questões burocráticas”, enquanto cerca de 3 mil brasileiros morrem todos os dias pela Covid-19 e mais de 100 mil se contaminam. Boicotam a vacina russa porque os governadores do Nordeste que, na maioria fazem oposição ao governo federal, compraram, recentemente, 37 milhões de doses.

A Bahia, por exemplo, governado por Rui Costa (PT), adquiriu 2 milhões de doses que deveriam chegar a Salvador, em abril. No entanto, os entraves impostos pela Anvisa vem causando transtornos ao Estado. “A aplicação (das doses) depende da autorização da Anvisa. Eu preciso que a agência autorize e ela não autoriza, pedindo cada hora mais documentações”, desabafa o Secretário de Saúde do Estado, Fábio Villas-Boas. Para o secretário, a Anvisa está muito mal conduzida e “indo para o buraco”. Segundo Villas-Boas, a Anvisa tem um diretor “com viés político, militar, quadrado e submisso ao presidente”.

A Anvisa, infelizmente, se perdeu. É rápida para liberar agrotóxicos, venenos para você, leitor, comer na sua mesa. Mas, é lenta demais para liberar vacinas para salvar a sua vida. É omissa.

*Roselei Julio Duarte, Professor de História e Diretor de Escola Municipal na Cidade de São Paulo.

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