O fotógrafo retrata um retratista, que retrata dois jovens irmãos. A princípio, uma cena banal, apenas curiosa, das ruas de Montmartre (Paris, França). Ou de qualquer lugar turístico do mundo. Mas, revendo a imagem alguns anos depois, uma curiosa rede de relações e significados se estabelece em minha mente. A menina olha, altiva, para o desenhista. O retrato da menina, esboçado pelo retratista, olha para o fotógrafo, ou seja, eu. Ou seja, nós.
Uma ilusão especular, que propõe uma triangulação interessante de olhares. Tridimensional seria um adjetivo adequado, se não fosse tão sequestrado pela indústria digital foto-cinematográfica para um uso unidimensional.
A menina hoje é uma mulher, e talvez gostasse de ver essa foto. O menino está entediado, quer acabar logo com aquela chatice. Eles não sabem que passaram a fazer parte do meu repertório de lembranças.
É verão, nota-se pelo vestuário. No alto, à esquerda, dois pés calçados de tênis poluem a foto. Mas podem ser vistos, por uma perspectiva de composição renascentista, como a ocupação de um espaço vazio. A foto amadora, feita com uma câmera compacta, ficaria melhor se aparecessem apenas os paralelepípedos?
Não há referência de horizonte, mas um poste no alto à direita está obviamente fora da vertical. Isso é compensado pela forte linha do braço, da perna e da prancheta do desenhista, que puxa tudo para o lado oposto, compensando até a postura dos retratados.
A menina tem os cabelos soltos. O homem prende, por contingência profissional. Não dá pra desenhar com o cabelo caindo na cara. A camisa escura, talvez preta, dos retratados, contrasta fortemente com a brancura do papel e da camiseta regata do retratista, e dão certa graça à imagem. A calça escura que ele veste, novamente, reequilibra as tonalidades.
Objetos estranhos provocam ruído nas bordas da imagem, e acentuam sua amadora imperfeição. E um elemento misterioso, à direita da prancheta, quase no centro da foto, atiça a curiosidade. Demorei anos pra notar aquilo. Você percebeu?

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