Quando era mais novo, visitei o Museu do Café às pressas, pois naquele dia não dispunha de muito tempo para passear por Santos. Na ocasião tirei fotos do interior do edifício e de algumas construções do entorno. Eu era um jovem graduando que nem tinha começado, de fato, a minha vida profissional. 

De lá para cá, muita coisa mudou. Iniciei pesquisas, terminei a pós-graduação e comecei a dar aulas. E, na semana passada, resolvi revisitar o museu. Logo de cara percebi que a própria instituição metamorfoseou as suas salas de exposição e trouxe para o público questões como, a presença de mulheres na história paulista, as opressões geradas pela escravidão e as políticas voltadas para o campo. 

A questão ali não é apenas estética, mas política, teórica e metodológica. O museu mudou a maneira como conta a história do estado e se aproximou mais de seus visitantes, os quais agora interagem, não apenas com os olhos, mas ouvem relatos e tocam em gavetas que desenrolam mapas e fotografias. 

Quando visitei o Museu pela primeira vez, não tinha parado para olhar com calma o vitral que está acima da sala dos pregões. Agora, o fiz e me espantei, pois o mesmo representa uma alegoria feminina que emana fogo. Aos seus pés. há a figura de um indígena que ataca dois portugueses. A ideia seria de representar a "conquista" de Anhanguera, como se ali fosse o início da "civilização" paulista. Diferente daquela primeira vez, agora, temos placas que explicam e datam o desenho. A preocupação é de não comprarmos a ideia que os seus idealizadores queriam deixar no início do século XX. Esse detalhe me tranquilizou, mas me pôs para refletir, pois lembrei de como eu não identificava certas temáticas a alguns anos.

Entretanto, essa mudança no olhar não é somente minha. Não nascemos sabendo analisar fontes e muito menos mantemos os mesmos questionamentos depois de mais de uma década. Além de amadurecer, sei que os debates que diferentes grupos e movimentos sociais levantam hoje nos ajudam a perceber o quão problemático é aquele vitral. O próprio museu passou a enfatizar a importância de um olhar crítico sobre aquela obra, o que também não foi espontâneo, mas fruto desse longo processo de debates e luta para ocupar esses espaços. 

Como uma fonte, o vitral está ali para ser observado, mas, ao mesmo tempo, perde o significado que tinha quando foi feito, passando a gerar incômodo. Assim, ele nos lembra que não devemos acreditar na ideia bairrista de que SP teve uma história linear heróica e muito menos que os bandeirantes eram os heróis. Os povos indígenas resistiram e resistem às investidas contra a sua cultura e existência. A nós, historiadores, cabe a obrigação ética de apontar para esses problemas, o que também serve para a equipe gestora do Museu. A tentativa de mudar o ponto de vista sobre o passado pode não surtir a princípio o efeito desejado, mas é uma contribuição significativa em meio a tanto obscurantismo. 

O vitral está lá, mas não é mais uma homenagem das elites cafeeiras ao bandeirantismo e ao genocídio dos povos indígenas. Ele é, agora, um triste "souvenir" de uma história ensinada para manter o status quo e que deve ser utilizado agora para mudar a maneira como entendemos as coisas. Seu local, ali, numa sala de exposições devidamente orientada, serve como um remanejamento. Seu espaço agora é outro. 

Retirar, alterar ou ressignificar estátuas, monumentos e obras de arte das ruas e mandá-las para espaços onde possam ser questionadas são opções válidas. 

 

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Autor
Roger Camacho - Doutor em História pela UFRGS, mestre pela UNIFESP. Professor na rede pública estadual e interessado em temas como gênero, Trajetórias de vida, branquitudes, memória e patrimônio.
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