É comum vermos amigos e colegas fazendo piadas com os membros do governo neofascista que ocupa o poder. Até aí não vejo problema, mas chama a atenção como a masculinidade ainda é um ponto sensível para muitos de nós. Semanas atrás, o termo "noivinha" foi repetido exaustivamente para tratar do passado do inominável presidente. Concordo que ele mereça ser satirizado e criticado até o limite, porém, não acho que ser o "passivo" de alguém seja um problema.

Além do mais, se o filho dele tem ou não um namorado, esse não é o "problema" a ser lembrado. Ele deve ser combatido pela sua postura ultrarreacionária e avessa à existência de muitos de nós. Dizer que todo homofóbico é um gay "enrustido" reforça a ideia de que nós (LGBTQIAP+) somos incapazes de lidar com nossas próprias dores. Sofremos todo tipo de violência, sim, mas temos capacidade de agenciar e mobilizar nossas demandas e, portanto, não somos um bando de "mal resolvidos" que despeja ódio pelo mundo.

O problema do ataque à masculinidade/sexualidade surge em outros casos e são várias as situações em que muitos buscam utilizar tal vetor como motivo de ataque. Se um político de elite não é casado e/ou não namora, vemos nossos companheiros de militância fazer piadas e pôr em dúvida a sua heterossexualidade, como se isso fosse passível de risos. Repito, os reacionários devem ser criticados pelas suas posturas e pela sua agenda e não por traços intrínsecos à sua existência. É como se o "velho homem macho" ainda falasse aos nossos ouvidos para lembrar que certos comportamentos devem ser controlados.

Eu, como homem gay, não estou isento de reproduzir falas com teor homofóbico e, assim como muitos dos meus pares, devo virar a página desse patriarcado que envolve minha visão sobre o mundo. É claro que não estamos isentos de absorver muito daquilo que despejam em nós, mas não custa tentar rever muitas de nossas posturas. Não deve(ria) ser normal acharmos graça de afeminados ou da orientação sexual "duvidosa/indefinida" de outra pessoa. Da mesma forma, não deveríamos naturalizar o ideal machista de que o passivo está abaixo do seu parceiro ativo.

Sei que já reproduzi muito dessas posturas e que não estou livre de errar, mas não me custa lembrar a quem me lê de refletir. Minha ideia aqui não é de criar uma cartilha ou apedrejar alguém, mas de contribuir de alguma forma com uma sociedade mais igualitária. Tentam de toda forma colocar-nos em nichos (ou guetos) para nos dividir e isso acaba reverberando no tratamento que damos a nossos pares. Muito triste, mas não é impossível, e muito menos tarde, para recomeçarmos.

Por fim, estendo esse texto para outras questões que permeiam o imaginário dos nossos conhecidos e familiares, como o próprio racismo e a gordofobia, mas isso é questão para outra coluna. Uma, inclusive, foi escrita pela Aline Ribeiro esses dias.

Autoria
Roger Camacho - Doutor em História pela UFRGS, mestre pela UNIFESP. Professor na rede pública estadual e interessado em temas como gênero, Trajetórias de vida, branquitudes, memória e patrimônio.
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