A campainha tocou e tive de parar de fazer o almoço para atender. Desliguei as bocas do fogão, as panelas todas se desanimaram e de seu interior os vapores foram bufados para fora como quem dança em alvoroço e, de repente, ouve o vazio da música que se apagou.

Desci as escadas da frente de casa até certa altura em que conseguisse ver claramente quem chamava. Era um homem, mendigo, a barba crespa branca e preta, emaranhada, a roupa suja e um par de botinas furadas. Apenas um bêbado pedindo esmola pra comprar mais cachaça, pensei. Disse, “não tenho nada, moço”, ao que ele resmungou qualquer coisa que não pude compreender e, sabe-se lá o motivo, ao invés de lhe dar as costas e voltar ao meu almoço que com tanto zelo preparava, já que meus filhos logo haveriam de chegar da escola, desci um degrau e lhe perguntei, “pois não?”, e ele me fez um sinal para que chegasse mais perto. Bem, cheguei mais perto daquele homem que, ao contrário do que meu olfato se preparava para evitar, não cheirava nem de longe a álcool, mas somente à sujeira de banhos não tomados.

Ele simplesmente não conseguia se explicar, e, para sua timidez, confesso que não estava eu preparada. Na verdade, acredito que não estávamos nós dois preparados para aquela estranha relação do que pede e do que é pedido, relação do absurdo do humano. O homem parecia ser mendigo de primeira viagem, já que não possuía aquela arte de mendigar, que requer uma oralidade no mínimo bem trabalhada, para que assim se obtenha, pela piedade, um favor das mãos do interlocutor. E nessa atrapalhada empreitada do homem que, extremamente acanhado, não conseguia nem contar sua história e muito menos reivindicar o que a compaixão quase certamente proporcionava aos seus irmãos sem-profissão, atrapalhei-me inteira, de maneira que nossa relação de mendigo-benevolente se desmanchou completamente. Qualquer que fosse a posição hierárquica que eu possuísse antes, já não existia mais.

Retraída, inquietei-me frente àquele homem que não sabia falar de si nem do que necessitava. Ai! Ele era um ser sem chão, imundo não só da sujeira das ruas, mas da sujeira do mundo todo: da ganância do ser, da imprudência dos que lideram, da partilha injusta, dos vícios mundanos e da nódoa da vida. Aquele homem, que carregava muito em si, sem nada, possuía mais que eu, desabitada como sou por possuir objetos tão mortos como os oferecidos pelo mercado. Que possuía eu quando, frente a frente ao que nada tinha e nada pedia, também nada conseguia falar?

Foi o que me sobrou, a mudez da boca e do espírito. Naquele momento, me enchi de clemência por nós dois, mendigos da alma, rogando por um pedaço de coragem que nos retirasse daquela situação. Restou-me um único sentimento sincero, e essa caridade quase ancestral atordoava-me de maneira que me sentia mãe de mais um filho, parido, crescido e abandonado bem ali, em minha frente.

Apertei o ventre com as mãos, o que fez com que o homem que nada dizia, fiel ao seu assombro, virasse-me as costas e fosse embora, e eu só consegui respirar o alívio puro que se formou e dizer com a maior franqueza de todas: “mas eu não tenho nada mesmo”. Subi os degraus até a cozinha e voltei a preparar mecanicamente o farto almoço. Os meninos logo retornariam da escola, famintos.

Autoria
Matheus Zucato, apaixonado por literatura clássica e psicológica, autor dos livros Os Dois Fazendeiros (2018) e Realidades Rompidas (2021). Participante em algumas antologias de contos e cronista mensal no Jornal Monte Sião, desde 2018. Foi vencedor do I Concurso de Contos de Iguaba Grande - RJ. É colaborador do CCN Notícias.
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