"O dia não veio,

O bonde não veio,

O riso não veio,

Não veio a utopia,

E agora, José?"

Carlos Drummond de Andrade.

Ao sair do prédio onde moro para ir ao mercado, encontrei um rapaz que estava fazendo uma entrega para meu vizinho. Observei que ele usava uma bicicleta de um aplicativo de aluguel de um banco conhecido.

Essa é uma das novas possibilidades de trabalho nos dias atuais.

Na minha juventude, trabalhei numa exportadora de café, em Santos (SP).

Quando ia ao Porto, via trabalhadores carregando sacas de café nas costas, dos caminhões para os armazéns e depois para os porões dos navios.

Entre o caminhão e o armazém, um funcionário da exportadora furava os sacos, retirando alguns grãos e colocando numa pequena lata redonda (para classificar o café a ser exportado).

Pelos pequenos furos das sacas, caíam alguns grãos no chão, mulheres e crianças os recolhiam para vender nas torrefadoras do centro da cidade.

Os "contêineres" mudaram todo esse cenário.

Não há mais a necessidade de trabalhadores braçais e, de quebra, também tornou desnecessários os armazéns.

Os contêineres não precisam de armazéns, só de um piso e um guindaste gigante.

O café é embarcado na fazenda dentro do contêiner, vem de caminhão ou trem até o pátio e estará dentro do navio com apenas um operador de guindaste.

Em 1995, numa viagem sobre novas tecnologias aos Estados Unidos, visitei os armazéns de Nova York. Quarteirões inteiros da região portuária foram abandonados pelo novo uso do contêiner.

Os contêineres ficam em pátios ao lado dos navios e transportam todo tipo de mercadorias, tornando os armazéns desnecessários.

A prefeitura iniciou uma reestruturação dos armazéns transformando-os em pequenas vilas com casas, praças, bibliotecas e escolas.

Uma simples mudança no processo de trabalho causa um grande impacto na cidade e na sociedade.

A inovação é uma constante nos dias atuais em todas as áreas.

E como no videogame, "o jogo mudou de nível".

O uso massivo de robôs nas indústrias (com redução do emprego industrial), a automação dos transportes e bancos, os novos materiais, a tecnologia de informação integrada aos equipamentos e etc.

Já pensou em uma economia que não tem refinaria, posto de gasolina, gasoduto e poços de petróleo? Isso já está em marcha com os carros elétricos!

A inteligência artificial nos serviços é, também, uma realidade.

Um marido contou uma piada, sua mulher deu uma gargalhada, seu filho riu, a “Siri” riu e a “Alexa” disse que já conhecia.

Isso é só o começo. As inovação tecnológicas eram a substituição da força muscular dos trabalhadores por máquinas, agora é a incorporação da mente humana nas máquinas.

O imenso aumento de produtividade do trabalho realizado pelas inovações tecnológicas e de processos, infelizmente, não trouxeram um mundo melhor para todos.

O jovem com a bicicleta alugada é a ponta de uma imensa engrenagem de acumulação de riqueza global.

Se você ganhar dez mil dólares por mês (mais de cinquenta mil reais), em um ano terá cento e vinte mil dólares. Em dez anos, terá um milhão e duzentos mil dólares. Em MIL anos você terá um bilhão e duzentos milhões de dólares.

Como uma única pessoa tem uma fortuna de cento e oitenta BILHÕES de dólares?

O dono da Amazon tem, graças ao jovem entregador, outros trabalhadores, pequenos empreendedores, programadores, supervisores, gerentes e diretores dessa máquina em escala planetária.

A redução de jornada de trabalho (mais gente trabalhando, menos tempo), aliadas a uma renda mínima para todos é uma saída para minimizar os danos desse mundo tão desigual.

Simplificando, a luta de classe continua e tem novos desafios.

É simples assim!

"E agora, José?"

Autor
José Paulo Barbosa é professor, escritor e militante de causas sociais e ambientais.
Artigos publicados