I.

Antes desta ocasião, havia encontrado Genivaldo a comprar o jornal da semana, na banca da praça central. Em seu olhar, o incrédulo, porém vivo olhar de quem encontra uma pedra e nela vê um pontinho brilhante. Trocamos mãos nos chapéus e acenos de cabeças, e o homem não pôde esperar pela continuidade. Respondeu apenas um "veja só isso! Está sabendo?". Estranhado, de pronto bati os olhos na principal manchete do jornal da cidade e região. Lá estava a notícia da queda de uma ponte da cidade. Em verdade, era uma ponte de pouca importância, ainda que isso fosse relativo, pois a ponte ligava duas ruas de pouco nome à totalidade do município; contudo, facilitava a vida dos moradores locais.

Uma antiga ponte, em verdade. Construída nos tempos dos avós, época em que as técnicas rudimentares visavam suportar as charretes e os primeiros carros que chegavam à cidade. E apenas isto. Depois de dias de muita chuva, o rio arrastou as margens encharcadas com a força de muitos mineradores, e delas os ferros despontaram e o solo se afundou, levando a ponte para o leito do rio. Felizmente, dizia o jornal, ninguém se feriu.

II.

A ocasião de que quero, finalmente, falar, voltava eu da partida de futebol entre dois times locais. Clássico marcado pela goleada inédita de um time sobre o rival. A comemoração seria exatamente no bairro de Capim-alto, para onde era necessário o acesso à ponte. Já haviam improvisado, os moradores, estreita ponte de madeira sobre madeira, apregoadas, reforçadas por cima e por baixo por bambus. Carro não passava. Charrete, só sob supervisão divina. Naquele dia, andávamos em orgulhosa procissão de vencedores — jogadores e torcida, da qual eu fazia parte —, e encontrei Genivaldo tomando notas numa caderneta ao lado da ponte destruída. Os animados passaram em saudação ao avistarem mais aquele adepto do time; no entanto, achei um tanto curioso o fato de estar meu amigo num local de tal desolo no momento em que o time do coração disputava em campo.

Genivaldo respondeu aos cumprimentos como fosse disputar eleição. O sorriso, agradabilíssimo, alegórico, a embelezar a paisagem arruinada. Acheguei-me, acenamos as cabeças, e ele foi além, numa convicção oculta. Disse-me, surpreso, que perdera o jogo, pois tratava de assunto sério. Depois, apaziguando meu assombro, perguntou-me do jogo, que de golpe voltava-lhe à memória. Contei-lhe o resumo, mas não tive o tempo de inflar o peito, pois sua atenção escorria como as altas águas do córrego barrento que abaixo de nós viajava. Vencido, perguntei-lhe, para seu alívio, o que fazia ali, que assunto era de tal valia. Encheu o tronco e disse: vou reconstruir a ponte desabada!

Com singela sinceridade, acreditei ter ficado maluco, o amigo. Perguntei por que se submetia à reconstrução da ponte, quando fosse aquilo — disso sabemos todos — dever do município. Disse somente que não havia tempo a perder, que conhecíamos bem com quantas patas anda o ofício público. Informou também que havia feito ótimo negócio, pois que a prefeitura restituía o favor outorgando-lhe o direito da construção de uma cabine fiscal, isto é, que possuísse ali o soldo dos que cruzassem a ponte. “Cobraria quanto?”, perguntei de prontidão.  Ele disse que era questão para depois, e que o que importava era a construção da ponte. Como somos amigos, perguntei, abelhudo, quanto custaria o empreendimento, e Genivaldo mostrou-me a última página da caderneta que já perdia a cor da capa sob suor da mão do homem. Lá estava o exorbitante montante, resultado da soma de materiais, estudo, obra, manutenção, e todo o mais necessário à reparação completa de uma ponte daquele tamanho. Fosse minha a caderneta, teria pulado no rio. Indaguei-o sobre o quimérico valor, se havia, conforme rito do governo, feito o jogo dos lances, o procedimento licitatório, ao que recorreu de que não havia tempo e tal era a vantagem do cuidado próprio: ligou no número indicado quando consultou a prefeitura, e escolheu essa que lhe atendeu; não havia tempo para papéis nem olhos-nos-olhos, mas pediu um recibo de seu depósito e uma carta-promessa (uma espécie de contrato), que viriam assinados por Alfredo, engenheiro da empresa. Tudo certo, conquanto iniciassem prontamente a obra. Terminou por me enxotar de forma polida, indicando que demais explicações podiam ficar para depois, e que o povo honraria seu sacrifício financeiro.

III.

Semanas e meses se passaram, e Genivaldo aguardava fielmente a chegada das máquinas para dar início à construção da ponte do bairro. Confessou-me, certo dia, haver depositado à construtora, como forma de entrada, toda sua economia despropositada de anos de suado trabalho, acrescido às penhoras que fez disto e daquilo quando da negativa recebida pelo banco municipal. Ligava toda semana e recebia devolutivas um tanto dúbias, mas contentava-se com as garantias da empresa — recebeu inclusive carta assinada do engenheiro da companhia, o tal Alfredo, com remetente em branco — de que estaria ali o quanto antes. E não vinham. Não vieram. Quando perguntou na prefeitura sobre o endereço da construtora, em desejo de lá investigar o motivo da demora, a prefeitura indicou que em algum lugar do depósito se encontrava uma caixa com o cadastro completo da empresa, e que deles só tinha, de pronto, o número do telefone. Meses em vão flutuaram na

pequena cidade, e o córrego continuava a cruzar aquelas ruas sem um chapéu que lhe fizesse sombra.

IV.

Depois de dois anos desde que Genivaldo encontrara o endereço da empresa e lá fora descobrir um enorme campo pastado por vacas — terra de ninguém —, ainda ele esperava pela empresa que, de dois em dois meses, mandava-lhe garantias da chegada iminente. Foi chacota regional o dia em que vimos mesmo o construtor receber da companhia, de calmante caução, um enorme bolo branco, moldes de casamento, que o homem repartiu com o povo que ali apareceu, maneira de agradar aqueles que pagariam o imposto pelo uso da ponte, que não tardava em ser erguida, como demonstrava a empresa depois de presentear o cliente com tamanho deleite. Foi nessa época que o povo, cansado de contornar o canavial dos Couto para ir à cidade, passou a cobrar do município a solução do caso. O município respondia, em defesa, que era assunto do responsável, Genivaldo. O povo, em profunda compaixão pelo homem, não teve a coragem em exercer a demanda. Continuou-se a contornar o canavial. Auxiliado pelos colegas, encontrou advogado, que dentro de seu terno surrado disse que em nada podia ajudar quem em cautela não se ajudou.

V.

Anos se passaram, e o que sobrou ao pobre sujeito foi a construção de seu novo lar a beira-rio, barraco de paus e lonas. Genivaldo, o construtor, em obstinada crença, tornou-se figura folclórica regional. O barba-branca recebeu, ainda durante algum tempo, os regalos da construtora como promessa da obra, até que os então anuais presentes rarearam e se tornaram transparentes como a ponte que cobria o córrego municipal. Foi no tempo que deixou de receber os mimos, que o senhor Genivaldo passou a acreditar com mais convicção de que, finalmente, a companhia construtora chegava.

Autoria
Matheus Zucato é mineiro, autor dos livros “Os Dois Fazendeiros” (Editora Autografia, 2018), e “Realidades Rompidas” (Edição do autor, 2021). Participou de três antologias de contos e é cronista mensal em nove jornais de São Paulo e Minas Gerais, desde 2018. Foi vencedor do I Concurso de Contos de Iguaba Grande (AACLIG), em 2019, e recebeu menção honrosa no VIII Concurso Literário da Academia Penedense de Letras (APLACC), em 2022. É colaborador do CCN Notícias.
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